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Chico Buarque Acaba de salvar a Minha Vida

15/02/2010

Decidi que está na hora de não mais viver. Sim eu cansei. Não quero ser uma morta qualquer, não quero ficar feia e gerar comentários sobre isso. Não quero morrer de repente, nem na rua, nem na minha casa de Jacarepaguá onde imagino um monte de gente ficará contente e debocharão do meu corpo pesado dando trabalho ao carregado escada acima. Caraca a civilização nossa é muito idiota. No momento mais triste da vida das pessoas, deixam as coitadas expostas a tudo que elas com certeza discordavam. O México poderia dominar o mundo e obrigar a todos a clebrar a morte com festa e cachaça, tal como nascemos, morreríamos. Não quero que aquelas pessoas de lá sejam as primeiras a saber da notícia nem as primeiras a terem acesso a tudo que nos últimos 20 anos tentam roubar de mim. Puta-que-pariu! O ser humano é ridículo e tosco. Fazem guerras, criam brigas por causa de coisas que não cabem no caixão, não complementam o coração e ainda sobrecarregam a alma! Há 23 anos essas pessoas que eu não quero que me vejam morta, ocupam a casa que era da minha mãe e tentam se espraiar pela pequena quitinete em forma de vagão que construí. Eu não tenho muita coisa, sempre quis ter só que preciso pra viver, o que uso de verdade. Coisas inúteis para eles: livros, CDs de MPB e rock, cadernos com poemas e quadros. Eles se interessariam por algumas coisas que uso pouco: um ótimo sofá-cama, aparelho de som e TV, algumas roupas tão bacanas que estão novíssimas, masi que tudo o que desperta a ambição deles: o espaço. Em 23 anos se reproduziram como erva-daninha, parasitas que não produziram nada, sequer um ninho para enfiar a prole. Em dias em que não me sinto bem, vejo a vida assim, os ignorantes invadem e o restante que se mate.

Não só, mas também por isso, hoje decidi que a hora de viver acabou. Em algum momento da vida a gente tem que dar um ponto. Em algum momento da vida a decisão sensata deve ser minha.
Cansei da visão espírita de que estou aqui para fazer coisas, pagar dívidas. Não consegui amealhar nenhum patrimônio que pudesse oferecer-me paz de espírito. Cansei de ter a ilusão que num hora qualquer vou ganhar na megasena e fazer 50 pessoas felizes. Eu hoje descreio completamente da felicidade.
Assim penso que está na hora providenciar minha viagem de volta para algum lugar que espero nunca tenha ido. Vou fazer a viagem por via maritima. “É doce morrer no mar”.
Vou tomar umas biritas, 4 cervejas me derrubam. Duas caipirinhas me deixam sensível como um pêndulo de cristal. Quero ver o mar, um possível atavismo do líquido amniótico… Algumas pessoas são tão indevidas e quivocadas que sequer na barriga da mãe tem proteção. Imagino que tenha sido este o meu caso. Ponho-me a pensar: Se a notícia da minha chegada, não trouxe alegria quando eu era somente uma semente e uma esperança, algum dia após conhecida seria eu bem recebida? Tenho certeza que resolvi isso na terapia. resolvi para viver, mas nesse momento não é a vida meu objetivo. Passe mais de 20 anos em sessões de anãlise para viver melhor, só eu e descubro que serão os meus fantasmas que me receberão na morte ou exatamente ele que me encaminharão para ela. Análise se sertralina deve ser vã… Tantos me falaram isso e eu sempre desdenhei por preferir a cerveja, também tecnicamente dosada: nunca mais de 4 copos, não pelo embebedamento, mas porque odeio ressaca. Isso me faz lembra outras coisas. Eu devo ser o suporasumo da chatice. Não bebo demais pra não ter ressaca. Evitei drogas por toda a vida pra não ficar viciada. Demorei a transar pra não ficar grávida. Não tive filhos porque queria eu mesma cuidar deles e não deixá-lo a receber conceitos de uma empregada que certamente eu jamais teria se não tivesse uma criança para cuidar. A executiva foi a luta, ganhou status, ficou rica, é famosa e são mulheres da favela ou coisa parecida que ensnam pro filho da executiva o mesmo que ela ensina pro seu próprio filho. Vida de merda! Faz sentido viver. A gente não vive, a gente se entrega a um redemoinho que nos dá a ilusão de que vivemos. Nós não percebemos os cordões que comandam nosso gestos.
Por isso enchi. Eu não quer de novo começar tudo de novo! A única coisa que fiz depois dos 40 que achei legal mas não me tornei fã foi ler Charles Buckovsk, e sei lá porque foi dele que lembrei agora. Se eu fosse homem, arriscaria sair pelo mundo tipo vagabundo, bebendo em buteco barato e dormindo em jardins píublicos, fazendo uns bicos porque jamais conseguiria pedir, ainda que eu fosse homem… Com Charles eu tive uma relação de amor e ódio. Aquele homem que eu lia, me faria correr, caso o encontrasse na rua. Aquel marginal certamente que não me encantava. Mas a mente confusa e reta de quem não está preso a anda e aquele estilo de vida de galho-em-galho de um tipo que fala da porrada que deu com a mesma clareza e simplicidade que fala da porrada que levou não me deixou em paz. Porque sendo tão chegada à leitura só li Buckovsy após os 40 anos? Talvez eu preferisse o mundo mais colorido ou certamente que o feminino semre foi a minha praia mesmo. Praia, lembro que tenho um compromisso… Passei a juventude lendo Clarice Lispector, e confesso que nosso primeiro contato não foi muito amistoso, acotumada que eu estava ao universo reto e direto de Rubem Braga. Eu não me lembro em que momento me entreguei a clarice e ela me envolveu como uma amante que jamais me abandonaria por mais que eu a traísse… Muitas vezes traí a doce e complicada Clarice pela bela Lya e suas historias e lembranças. Seus sábios conselhos. É como se Clarice fosse o susto e o espanto, o medo e a surpresa de quem está em volto em tecidos finos que tornam opaco o que vemos… E Lya sempre me pareceu a mulher que vinha de algum lugar, com alguma memória e várias conclusões. Passei minha vida com Clarice, mas pediria certamente conselhos à Lya. Colo ao Tom Jobim e beber só beberia com Chico Buarque. Se eu encontro com o Chico Buarque, teríamos um atropleado de olhares, um tumulto de silêncio. A cada momento que nos exergássemos, baixaríamos tímidos a cabeça e eu não conseguiria lhe fazer pergunta alguma. Imagino que beberíamos e seriam seus olhos verdes que me deixariam irreversivelmente embriagada. Penso emd eixar de viver noutro momento, acabao de achar um motivo pra viver, eu e Chico vivemos na mesma cidade e se nos encontramos, imagino que jamais nos falaríamos, contudo é um bom motivo.

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