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20/11/2010

Meu pai não se casou com minha mãe. Namorou com ela, fez-lhe um filho, morou com ela. Com a mesma simplicidade, um dia não moravam mais e complexamente não conseguiam manter essa distância. Assim iam e vinham, simplicidade dos que se amam, loucura de um amor demais e torto com o qual não se consegue conviver.
Tudo isso eu imagino, ninguém me contou, histórias são feitas de fatos, construídas pelas certezas e só o passado sempre traz conclusões, contudo, ninguém conta o que as pessoas sentem, apenas o que fizeram.
Ela tinha 19 anos, ele 17, mas não tenho certeza quanto a esses números. Tive uma irmã que nasceu primeiro, 10 meses depois eu nasci. Uns meses depois se separaram. Não sei porque, sei o que disseram, mas o que disseram não me parece verdade. A verdade que nós não vivemos, jamais saberemos. Não importa, não mudaria nada, somente a verdade deles poderia mudar alguma coisa. A mentira também.
Com nove meses, minha irmã foi levada para casa de uma tia irmã do meu pai que morava no bairro de Campo Grande. Eu, fui entregue num portão para um casal que teria condições de cuidar de mim, consta que eu tinha uma doença se não grave, feia que me enfeiava, não sei não tenho fotos. Dizem que as fotos só vieram quando minha aparência melhorou – no meu modo de ver, nãod everia ter nenhuma até hoje. Tenho muitas lembranças, como um sonho sem pé nem cabeça, onde se está aqui e ao mesmo tempo lá. Não lembro do que acontecia, apenas do que sentia. Não sei o que era, sei o que eu via.
Lembro de umc arro preto com um estribo generoso, em pé nele segurando-se na janela um menino branco de cabelos negros um que tinha na cabeça um cocar de índio e cantava “tristeeeeeeeeza, por favor vá embooooooooora”. Largo da Freguesia, próximo do rio sangrador, carnaval, o ano não lembro, mas lembrando dessa forma a música não me parece tão antiba. A minha infância não é antiga, a minha vida não envelheceu.
Lembro de uma fantasia que diziam chamar-se sarongue e lembro que achava esse nome feio pra caramba e ainda acho. Chegando desse carnaval, sei que dormi num berço e fiz cocô na cama. Me lembro de todos muito grandes e eu mínima atravesando a sala, sem conseguir andar direito e lembro que náo tive vergonha. Talvez eu não soubesse o quera cocô. Talvez eu não entendesse o que significava estar cagada na frente das visitas, mas dos gritos e broncas lembro que não entendi absolutamente nada.
Eu lembro do dia que a TV chegou à casa, mas não lembro como era a casa sem TV. Havia algumas noites que faltava luz e conversava-se à luz e sombras de lamparinas. Tínhamos lampiões de querosene e lamparinas, confundo-me com os períodos de frequente falta de energia e períodos que não tínhamos luz. Mas eu gostava da falta de luz, era quando mais se conversava. Meus irmão faziam brincadeiras com as sombras na parede, falavam coisas extremamente engraçadas, era quase uma festa. Porque a luz voltava? A casa me parecia gande, enorme. Por uma época não tinha piso, mas tinha cristaleira repleta de lindas jarras trabalhadas, algumas coloridas. Uma garrafa bojuda parecendo cristal, desenhada ficava rodeada de pequenos copinhos desenhados com listras vermelhas. Uma garrafa entalhada, azul, com tampa de vidro e seus cálices, pequeninas tacinhas azuis. Taças de todos os jeitos, copos e mais copos. Eu não sabia a diferença entre riqueza e pobreza, ams tudo aquilo era lindo de se ver, depois que cresci tornou-se apenas difícil de se limpar e manter arrumado e me parecaim lembranaçs de uam aritocracia que nunca vi de verdade. Tínhamos uma mesa quadrada, de madeira escura e pesada, com as bordas do tampo entalhadas. Cadeiras com desenhos, cadeiras de braço, ma snão tinha água na pia da cozinha nem no banheiro, nem mesmo soalho no chão. Sobre a pia da cozinha uma “lata de 20″ com água e caneco para lavar a louça. No banheiro uma pia cuja torneira os desavisados insistiam em tentar abrir e querer ver a água corre para lavar as mãos, o que só se podia fazer no tanque… A casa tinha 2 quartos que não tinham portas, mas tinha cortina às vezes. As janelas de madeira, antigas e verdes.
20/11/2010
Difíceis de fechar e de abrir. Hoje penso que minha infância tinha caracteríticas fantasmagóricas como aquelas janelas. Cresci entre sombras e sustos. Minhas lembranças são mesclas de noites intensas e coloridos dias de sol. Melodias da voz do vento, açoite de árvores, desejos jamais realizados e dias altamente solares pintados com tintas fortes fabricadas pelos meus sentimentos, sonhos e imaginação. Eu sempre saí do meu mundo interior para encontrar as cores do dia, as sombras da noite, cedo desisti de encontrar pessoas, no entanto nunca consegui viver sem elas, as maiores solidões que tive na vida foram vividas acompanhadas. Tarde descobri que tanto faz estar só ou não quando o tema é ser solitário.

Eu poderia dizer que se teve alguém nesse mundo que viveu, esse alguém fui eu. Não vivi como o Guinle playboy que curtiu horrores de riqueza e admiração. Não vivi como pop star que persegue a fama e depois passa a se esconder das pessoas com desejos de privacidade. Também não vivi como um intelectual de sucesso e seus conflitos entre a notoriedade e timidez. Não fui garota de nada, nem da capa, nem do Fantástico e embora tivesse um corpo explêndido não posei nua pra ninguém, talvez uma ou outra vez num relacionamento mais picante tenha tirado umas fotos nalgum motel ou em casa mesmo na saída dos meus pais. Fora isso aproveitei desse belo corpo usando roupas ousadas mas pelo que possa lembrar, jamais vulgares. Beijei bastante, namorei pouco, casei muito, transei mais do que costumam fazer os casais depois que o início se torna meio e caminha pro final. Aproveitei pouco a popularidade, sim eu era uma garota popular mas não sabia. Mas tudo o que vivi, hoje percebo que foi muito intenso e creio que jamais me perdi de mim. Vivi de dentro pra fora, como se eu fosse uma casa para onde eu sempre retornava invariavelmente sem dia e hora marcados o tempo todo. Sempre fui minha própria referência e difícil foi desembaraçar o novelo formado entre o que eu era e o que faziam de mim. O que era genuimente meu e o que seria influência, interferência, anuência daquelas que praticamos pra não sofrer… Até perceber que sofremos muito mais quando o sofrimento não da nossa natureza. Talvez eu tenha sido uma pessoa estranha, mas nunca me estranhei. Aprendi aos poucos ao longo do tempo a me admirar e aí uma coisa aconteceu: eu me tornei postar local!

A minha casa era assim, móveis de madeira de lei, cristaleira com vidros e cristais, mas o piso era de terra batida. O banheiro quase espaçoso com vistosa pia sem água parecia uma pegadinha para as visitas. Tomávamos banho de caneco e bacia. Lavava-se a louça quase que da mesma forma. Uma casa contraditória e moradores idem. Um amplo quin tal fartamente plantado: abacateiro, goiabeiras, flores e ervasde tempero, onze horas, sempre-vivas, trombetas e papoulas. No início uma cerca viva pensava que era muro. E minha mãe era o homem da casa. Minha mãe foi alguém que quando lembro dela avalio que ela deixou de ser mulher para tornar-se uma pessoa e caminhava sem saber para categoria gente. Minha mãe era muito gente. Não sei se seus conceitos eram gerados numa personalidade forte ou em conceitos que copiou, criou, desencavou numa seleção que protegesse a ela e a nós do mal. O problema era justamente saber o que exatamente era realmente mal…
Uma boa parte da minha vida eu ia à escola pela manhã e muito cedo descobri que acordar cedo não era a minha praia. De tanto dar errado ou porque o sistema do colégio mudava mesmo, passei a estudar à tarde, descobrindo que este horário não propício à minha pontualidade, Quando pude estudar à noite a grande descoberta foi saber que à noite era nociva ao meu horário de voltar para a casa. Uma coisa é certa eu sempre amei ir para escola! Não consigo saber se realmente gostava de estudar. Entre o estudo, o aprender e gostar disso existem tantas coisas que interferem, como por exemplo a matéria, a professora, o recreio, a didática…
Estudava pouco algumas coisas por não ser necessário, estudava menos ainda outras coisas por ser extremamente necessário. Eu sempre brinquei de suspense comigo mesma: deixava as melhores coisas pro final e as piores também, então uma vez de posse de papel e caneta nas mãos escrevia poemas, porque isso era o que eu gostava e isso era o que eu queria fazer! A literatura era a terceira porta, a quarta via o caminho alternativo que para mim era oficial. Era o meu caminho: Ler, escrever, não mais.
Matemática era um troço que em dava medo. Tornei-me adulta com plena consciência que mais do que não gostar de matemática eu jamais tinha aprendido. Passei para o 2º grau sem saber Matemática, me livrei da parte difícil dela escolhendo um profissionalizante. Passei no vestibular sem saber Matemática. Era ela meu terror, um psicopata que me perseguia e que eu alegremente consegui driblar como numa gostosa brincadeira que sim, me dava calafrios e ao mesmo tempo enorme prazer quando sentia que a vencia. Vencia não dominando, mas provando que ela não era tão importante quanto me faziam crer.

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