
CASOS DE FAMÍLIAS
PARTE 1
Um homem- vamos chamá-lo de Giordano casou-se com uma jovem que chamaremos Lina. Ela era bela, morena e muito jovem. Trabalhava desde os 7 anos de idade numa pensão a troco de moradia e alimentação, pois seu pai, espanhol e fazendeiro de muitas posses perdera tudo em jogos e corrida de cavalos. Sua mãe era concumbina dele do estilo teúda e manteúda. Mulher morena de olhos azulados sem recursos e analfabeta decidiu distribuir os filhos quando viu-se sem nenhum recurso para mantê-los mediante à falência do amante e a oposição das famílias que lhe recusavam emprego (ela tentara empregar-se como doméstica, lavadeira, passadeira essas coisas).
Lina, então com 17 anos, sonhava em ter uma casa e estudar até onde fosse possível. No entanto, não resistindo os maus tratos a que era submetida na sua casa-trabalho-escravidão, aceitou os conselhos de sua mãe que lhe dizia que amor não era importante, viver bem sim, era importante! E mostrava-se como um exemplo a não ser seguido, de mulher que havia entregado-se ao amor sem agora ter nenhuma esperança de um final feliz para o seu romance…
Assim, Lina decidiu aceitar a corte de Giordano, um tipo conquistador, de bom papo, funcionário público, aparentemente um bom partido e com ele casar-se. Casaram-se em cerimônias civil e religiosa, conforme protocolo destinado às moças virgens de família católica de boa família da época.
No dia do casamento, na igreja, compareceu uma figura que Lina desconhecia, mas era conhecida de muitos dos presentes: Maria.
Lina descobria assim, tarde demais, que Giordano tinha uma amante com a qual mantinha duas filhas.
Seguindo a cartilha do bom comportamento feminino vigente, calou-se, afinal o casamento havia sido consumado.
PARTE 2
Giordano continuaria seu romance com Maria e dividindo-se entre as duas famílias. Maria mais experiente sabia como conseguir dele o que queria e precisava. Lina se desesperava e como ajuda recebia os conselhos familiares de que isso ia passar, que ela fosse boa esposa, afinal ruim com ele, agora pior seria sem ele.
Por sua vez, Giordano passava longos períodos fora e com o tempo sua assistência financeira à família oficial diminuia consideravelmente. Tornava-se cada vez mais irresponsável e sempre em busca de novos romances. Como sua mãe criticava com veemência seu comportamento, comprou um terreno longe dela construiu ali um arremedo de casa e para lá levou Lina e os filhos que concebera com ela.
Entramos na década de 60 e Maria, cansada de ser eternamente “a outra”, briga com Giordano, vai viver com um novo amante, um homem mais velho que Giordano, militar e viúvo, deixando a cargo de Giordano as duas filhas que teve com ele.
Giordano, sem outra opção leva as meninas para que Lina as criasse. Poderia ser bom, pois elas ajudariam a cuidar dos seus filhos bem mais novos. As meninas, já mocinhas não se adaptaram ao estilo de vida na “nova família” e trataram de arrumar emprego como domésticas em casas de família onde pudessem dormir, indo para casa uma vez por semana. Assim ficavam mais livres de tantos conceitos morais, carolices e cafonices que até mesmo o próprio pai, insistia em submetê-las.
Foi assim que a jovem Ceny, filha mais nova de Giordano e Maria, conheceu e encantou-se por Waldemar e com ele foi morar. Era um amor bandido. Volta e meia espancada pelo amado, refugiava-se na casa de Lina que jamais negaria auxílio a quem que que fosse. Waldemar colecionava algumas passagens pela polícia, fumava maconha e para manter seu vício prestava serviços ao seu fornecedor da droga. Ceny teve com eles 3 filhos. No dia 31/12/1968 Ceny preparava-se para o reveillon com sua madrasta e seu marido era contra. Pela primeira vez não se fez de rogada, ia, estava decidida.
PARTE 3 – Uma tragédia
Assim decidida, ela entrou no pequeno banheiro, uma cabine com uma meia porta que ficava fora da casa, coloca seu vestido de festa por sobre a porta e começa o banho. Waldemar, pega o vestido joga no chão e urina em cima e permance cinicamente, fumando seu baseado enquanto aguarda a reação da jovem esposa que ao sair do banho, não se importa, busca uma roupa qualquer para vestir. Ele a detem. Eles discutem. Ceny está grávida de 6 meses. Ele não quer que ela vá. Lina representa o lado “rico” da família e faz parte do coral de pessoas que dizem que Ceny deve deixá-lo. Ceny sustenta a casa e as crianças e é o grande amor de Waldemar…
O clima piora eles se atracam, vão para o quintal entre gritos e tapas. Waldemar bate, fica cego de fúria. Lança mão de um balde de flandres (?), grande e pesado e passa a agredir a esposa com a peça. As crianças gritam aterrorizadas os vizinhos chegam, tarde demais. O rosto de Ceny está ensanguentado e disforme ela estremece de sua boca sai um líquido estranho aos olhos das crianças (meus primos que me contavam isso sempre).
A notícia chega na casa de Lina e no dia seguinte todos vão para o enterro de Ceny. No caixão ao seu lado o pequeno natimorto.
Lina leva duas das crianças de Ceny para casa – Carlos então com 10 anos e Beth com 3 aninhos de idade.
Essa é a história da minha tia e dos meus 2 primos, únicas crianças que convivi na minha infância. Waldemar fugiu e por não haver flagrante, quando foi preso ficou na cadeia por um pouco menos que 1 ano. Ao sair da prisão, sua primeira providência foi ir à casa de Lina buscar seus filhos. Foi deprimente, triste, lamentável, uma choradeira incrível. Lina e Giordano entregaram as crianças ao seu pai que levou seus pertences, recusando apenas todos os brinquedos, pois eles ao seu ver estavam grandes demais para brincar com frescuras. Pouco tempo depois Carlos foi internado na FUNABEM e Beth foi viver com a avó paterna.
PARTE 4: a oUTRA fILHA
Célia era o nome de uma artista dos anos 50 que inspirou o nome daquela que um dia viria a ser minha mãe (nome é fictício). Célia tinha um gênio mais explosivo que sua irmã Ceny ou o evidenciava mais, até por ser mais velha. Não aceitava de bom grado viver com Lina numa casa com tantos regulamentos e afazeres. Um dia, com uns 15 anos, disse que iria trabalhar numa casa de família com folga quinzenal. Como as quinzenas se tornassem cada vez mais espaçadas, Lina tratou de procurá-la no endereço fornecido e descobriu que ela não trabalhava no local. Buscando, encontra Célia, num quartinho de aluguel, com uma perna quebrada. Descobre que Célia estava morando com um homem e que este numa briga lhe empurrara escada abaixo e ela além de quebrar a perna, estava grávida, perdendo o bebê.
Ela volta para a casa de Lina e logo que se restabelece decide ir embora de novo. Isso me contam e eu não sei até onde é verídico, mas todas as histórias tornam-se verdadeiras na narrativa de quem as vive, o que me estimula repetir essas verdades que verdades são, por assim terem me contado…
Célia tem um humor ácido, rascante, perturbador. Costumava brincar dizendo que jamais namoraria um negro. Se gostasse preto “andaria com um telefone debaixo do braço”.Se isso era uma verdade inventada ou se ela mudou de opinião, não perguntaria a ela jamais. O fato é que Célia conheceu Hamilton, um negro alto, físico perfeito, sorriso inebriante e um rosto belíssimo. O último nariz afilado da África! (rsrsrssrs)
Ela tinha então 19 anos, ele 17.
Namoraram e por opção ou economia foram viver juntos maritalmente. Brigavam muito, demais. Sempre.
Não sei ao certo quanto tempo depois nasce a primeira filha. As brigas continuam, eles se separam para logo depois se reconciliarem e assim vem a 2ª filha, a qual tentaria chamar de Márcia. Márcia chega ao mundo de parto natural feito por parteira em casa, prematura, desnutrida e sem cor. Hamilton olha aquela coisinha clara e esquisita e conclui: Isso não pode ser minha filha nem aqui nem na China. Célia não tem leite, Hamilton não tem grana pra comprar o leite. Márcia é um bebê feio, esquisito, muito doente numa família sem condições de alimentá-la. Passados 9 meses, a criança não tem registro, a mão não tem leite e o pai alega que não tem dinheiro. Eles brigam como de costume, Hamilton escolhe a filha mais velha que leva para a casa de uma irmã que vive num bairro afastado da Zona Oeste do Rio. Aliás, a menina talvez já fosse capaz de ir para a casa desta tia sozinha se precisasse tal o número de ocorrências similares. Desta vez havia Márcia, por um lado vítima de pais doidos, por outro culpada por não se assemelhar ao pai…
Célia ficou com o bebê, então com 9 meses de idade feioso e desnutrido. Coberto de eczemas e pústulas por todo o corpo, com uma doença que rezadeiras não sabiam dizer o nome. Sem emprego, sem ser aceita como doméstica por ter uma criança que berrava o tempo todo e que causava repulsa nas mulheres que ao ver um volume numa manta ou coeiro corriam para ver o lindo bebezinho… Sem leite para amamentar a cria que não possuía certidão de nascimento, procurou Hamilton para solucionar o problema: Eles poderiam trocar as crianças, afinal o bebê merecia mais recurso e atenção. Hamilton esquivou-se alegando que não era pai daquela criança, que ela fizesse com aquela filha só dela o que bem entendesse. Brigaram feio, Célia alegava fidelidade total. Hamilton não se preocupava com fidelidade, não queria aquela filha e fim, continuaria com a menina mais velha com mais de 1 ano fácil de ser cuidada por seus parentes. Então surgiu uma luz no fim do túnel: Procurou Lina, Giordano era afuncionário público poderia tratar a criança no Instituto! Giordano não aceitou, sua filha mais velha com Lina pediu, chorou implorou, prometeu ajudar a cuidar do trastezinho. Então, uma condição foi imposta por Giordano e talvez Lina (isso eu nunca soube): Ir ao cartório e registrarem a criança como filha do casal, afinal seria mais prático, fácil e rápido. Aquela criança estava à morte e se morresse como seria enterrada? Mas Hamilton teria que concordar também. Hamilton foi chamado e manteve sua postura de pouco-me-importa e disse façam tudo rápido porque ela vai morrer e eu não tenho dinheiro para enterrar nem para a papelada.
Assim foi feito. Giordano, que trabalhava numa repartição em frente ao cartório, conhecendo a todos da região, não teve dificuldades para registrar em seu nome e da sua esposa aquela criança, antes, foi um prazer para o tabelião pagar com esse serviço vários favores que devia a Giordano. A criança foi registrada com a data corrente, a fim de evitar-se a multa. Lina providenciou o tratamento da pequena, que então tinha uma orelha presa apenas por uma fina camada de pele, demandando tremendo cuidado para que não rompesse e a perdesse. O tratamento só foi possível no Hospital Jesus e o diagnóstico de câncer de pele. Lina varou várias noites na porta do hospital para que fosse das primeiras da fila. E voltava nas madrugadas para não correr o risco de não encontrar a medicação extremamente cara e muitas vezes não disponível no mercado. Fez promessa para São Lázaro, São Jorge e Santa Rita de Cássia. A criança lentamente reagia. Tinha muito atraso no seu desenvolvimento. Demorou a falar, demorou mais ainda a andar e já se conjecturava que seria excepcional, talvez pela gravidez em péssimas condições e a subnutrição a que se expôs no início da vida.
Uns 3 anos depois, Célia e Hamilton, reconciliados e vivendo bem, ele como soldado do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro, ela como boa dona de casa e manicure, procuraram Giordano e Lina para reaver a criança.
Teriam direito, eram pais biológicos e poderiam processar o casal. Ainda assim o casal optou pelo processo, não devolveriam a criança e que fossem eles à justiça e enquanto a justiça não definisse, que se mantivessem distantes a fim de não comprometer a formação da menina que dava mostras de visível progresso em relação ao seu retardo mental. Nada de “estragar” a educação que ela recebia. Onde já se viu, agora que a menina está bonitinha e gordinha! Vão a polícia, estamos aqui esperando para recebê-los!
PARTE 5
Hamilton e Célia voltaram para casa, tiveram mais 2 bebês lindo e saudáveis. O menino parecido com a mãe, a menina mais nova muito parecida com o pai. Eram agora uma família|: pai, mãe e 3 filhos, numa casa grande e com quintal. Márcia curou-se e compensou a sua luta e dos pais adotivos aprendendo a ler, escrever e falar tudo junto aos 5 anos. Entrou para a escola aos 6 já na 2ª série. Passou no vestibular para UFRJ aos 17. Sua mãe biológica a visitava nas datas especiais e sempre levava uma lembrancinha enquanto ela era ainda criancinha.
Célia e Hamilton separaram-se definitivamente quando a filha mais velha era adolescente e os outros 2 ainda pequenos. Célia jamais o aceitou de volta, ainda que ele propusesse por várias vezes, mesmo depois de ter constituído uma outra família com uma nova esposa com a qual não teve filhos (graças!). Contava, ele no quartel onde era oficial, que viva muito bem com a esposa mãe de seus filhos, os mais novos estudando no exterior e a mais velha, casada com um gringo morava na França.
Quando completei 5 anose aprendi a falar, Giordano tinha-se ido embora de casa há uns 2 meses, bem no dia do casamento daquela minha irmã que o “obrigou” a ficar comigo. Nessa ocasião, minha mãe, Lina me chamou num canto, “quero te contar uma coisa” ao que eu respondi: eu sei o que é.
-Sabe? Então fala, o que é?
- A senhora vai me contar que não é a minha mãe.
- E quem você acha que é a sua mãe?
-Eu não acho, eu sei que a minha mãe é a Célia.
-Quem te contou?!
-Ninguém…
-Fala, menina! Quem te contou isso?
-Eu não sei. Eu sei que fico muito feliz quando ela vem me visitar. Eu fico feliz e tenho vontade de ficar rindo quando ela chama no portão. Eu sei que o Marco é meu irmão.
- Quando você estiver maior eu deixar você escolher com quem quer ficar.
-Eu já escolhi.
-Tá mas não me diga agora, ta bom.
-Tá.
Márcia, passou no vestibular para UFRJ aos 17. Uma menina tímida e acuada. Nunca brincou de roda. Até os 34 anos nunca disse “eu te amo”. Queria ser atriz ou cantora de rock. Lina lhe disse que não eram boas profissões para uma moça de família e também que a grana era curta para aulas de violão. Tomou um ônibus pela primeira vez aos 14 anos. Foi superprotegida e às vezes espancada, fazia parte do que se acreditava ser uma boa educação na época.
PARTE 5
Lina fazia serviços de costura em casa. Retomou os estudos, tornou-se enfermeira, a vida melhorou muita coisa. Anos depois, ela cuidaria de Giordano que portava um enorme e feia ferida na perna, debilitado, envelhecido e doente foi abandonado pela mulher que o fez sair de casa, uma moça que na época tinha 19 anos, a mesma idade que a sua filha do meio.
Aquele arremedo de casa foi reformado, ficou uma beleza. Varanda, azulejos e lajotões que eram um primor. Lina finalmente tinha realizado o seu sonho de infância: ter uma casa para que pudesse convidar as pessoas sem se sentir constrangida. Logo após a reforma ela faleceu, Márcia contava então, 23 anos de idade e não mais morava com ela, mas sempre manteve o seu endereço muito próximo para as eventualidades.