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ALGUMAS MEMÓRIAS

Um dia estava numa boate com um amigo de um amigo, ambos gays. Ele subia e descia como se fosse um elevador desgovernado. Olhava de um lado para outro tal qual um ventilador oscilando. Confesso que embora não fosse tão menina tinha nenhuma experiência em acompanhar homem gay ou não numa noite de caça, em ter amigo gay e mesmo de estar em uma qualquer companhia não selecionada por mim. Em algum momento meu primo que er ameu acompanhante oficial desapareceu me deixando com aquela adorável, porém estranha e pouco familiar criatura.

Ele avistou um rapaz, olhou pra mim por cima do ombro com aquela olhadinha de quem que se dá ao levantar no ônibus antes de puxar a cordinha da campainha:
-”É bofe.”
- han?!…
Paramos, ou melhor ele me parou e falava como se fosse para si mesmo. – Bonito, cabelo cafona. Ah, fumante! Fumante… Fumante, não dá.
E corria para outra direção da boate. Nesse dia fiz uma descoberta e passei a conviver com um mistério. Descobri que o sucesso daquela boate residia justamente em ser grande, enorme, cheia de pistas, salas, salões, corredores, escadas. Dada a natureza de seus frequantadores ela funcionava como um espaço de selva urbana perfeito para a caça. O mistério das pessoas que avaliam superficialmente uma outra pessoa a fim de saber se rola ou não… Relembrando essa noite percebi que sofro da mais absoluta, crônica e aguda falta de critério. Pior tenho critérios que precisam de alguma convivência para avaliar. Deveria ter aprendido nas oportunidades que a vida me deu, a ter um chek list direto, objetivo mas o que tenho de mais objetivo diz respeito a tipo físico, item que vai por terra mediante determinadas caracteríticas que a pessoa possa ter não necessariamente no físico… :)
Sempre desejei namorar pessoas que tivessem próximo da minha altura, mas minha primeira namorada tinha 1,70. A seguinte 1,50. Sempre gostei de loiras mas minha primeira paixão era morena de cabelos negros, descendente de árabes. Éramos normalistas de uma escola tradicional de um subúrbio do Rio de Janeiro. Tinha que ser suburbano para ousar estudar para professores em meados da década de 80. Ali eu selei meu destino certamente. Uma escolha que fiz para dar uma alegria à minha mãe levou-me ao que ela jamais poderia imaginar para mim. Devo ter sido guiada pela mão do inconsciente, em detrimento da mão do destino que toda menina bonita, bem feita de corpo e tolamente suburbana encontrava para atravessar a vida… Busquei aquele colégio para alegrar minha mãe, encontrei uma escolha de destino, mas vamos combinar que aos 15 anos o destino nos encontra onde quer que estejamos para nos obrigar escolher seja lá o que for e muitas vezes não escolhemos. Aí posso falar do maior pecado ou tremendo erro que carreguei via a fora ou justamente por eles fui carregada por toda a minha vida. No fundo, eu jamais escolhi, nada, ninguém coisa alguma!
—————-
Embora não seja uma pessoa de índole inquieta no quesito namoro, casei umas 6 vezes e namorei muito pouco. Como consumidora tenho caráter intempestivo, entro numa loja falo pouco, ouço pouco também, gosto que me perguntem nada e que o atendente se restrinja a responder minha pergunta. Jamais pergunto opinião do vendedor e não dou a mínima para os seus elogios caso os faça. Quando cometo a ousadia de entrar numa loja tenho em mente dois objetivos: 1-saber preços ou 2º comprar. Não experimento roupa a menos que tenha dúvidas se dará em mim ou não. Nesse aspecto não sou influenciável. Entrar numa loja e adquirir um produto significa que a paquera já ficou distante, estou no estágio da paixão e se me apaixono e posso bancar tudo é muito simples: levo pra casa e uso à exaustão o novo “brinquedo”. Se não tenho paixão por uma roupa ou objeto, simplesmente nada compro, mas também não vou à loja,popando o meu tempo e o do funcionário. Em que este comportamento difere dos meus casamentos? [E que na maioria deles não escolhi, fui escolhida… Não poderia escolher se não tenho critérios para pessoas. Não saio por aí paquerando, mas sou sensível às mulheres que se expõem nas vitrines como alvos de uma competição de tiro. Cinco vezes percebi, cin vezes atirei e foi para matar e matei e morri junto porque separar é muito mais fácil do que casar.
Uma vez escolhi e deixei que os meus olhos seduzissem a minha mente. Mas confesso que acredito que paixão é um estado ao qual se chega somente com permissão. Há dentro de todo apaixonado um dispositivo que o predispõe a se apaixonar. O enamorado nunca assim se encontra se exatamente assim não desejasse estar. Embora a paixão pareça surgir como surpresa, é a surpresa preparada por nós mesmos.

MINHA HISTÓRIA COM A BELA:
Foi assim com a Bela. Eu chegava de uma cartomante que me alrtara para o fato de eu estar tão sem viço e alegria que jamais encontraria alguém para namorar. Eu nem sei se queria um amor, mas todas as cartomantes pensam que é isso que deseja a mulher que se senta à sua frente com cara de nada como eu naquele dia. Se a mulher chega com a “cara de tudo”, é certo que ela já tem um amor que teme perder. E se ela chega com uma cara indefinível, a questão obviamente é financeira, então a cartomante lhe abre um leque de possibilidades amorosas e a consulente “resolve” o seu problema financeiro ao descobrir que seu maior problema é a solidão. Malditas cartomantes! Que em todos os erros, acabam por acertar sempre!

Naquele dia, já durante a consulta com a cartomante, o meu celular tocou, era uma amiga convidando para um aniversário típico: churrasco e pagode no quintal. Eu estava com a vida enrolada e também pernoitada, mas fui, ainda que as previsões não fossem favoráveis. Ainda que a cartomante pudesse ter razão que eu vivia dias de falta de viço e entusiasmo. Ainda que estivesse um calor de rachar e eu nem estivesse a fim de barulho na minha cabeça, qualquer era melhor que ir dormir num dia quente de verão e início de ano. Afetivamente eu vivia uma relação de puro acordo. Estávamos juntas porque precisávamos e amor não estava nesse pacto. Assim nesses dias de interior sombrio, mente indecisa e coração incerto quando nada de novo poderia acontecer, aconteceu!
Uma morena clara de cabelos longos e escuros, pele bronzeada e roupinha branca! Foi a primeira vez que eu olhei uma mulher e pensei: “delícia”. Sempre preferi ouvir primeiro para investir depois, mas nunca estivera numa fase tão morna, de rotina quebrada por outra rotina esperada…

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