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Uma Mãe

14/10/2014

Há uns meses estou morando na casa que foi da minha mãe. Eu e ela não chegamos a conviver. Nos encontramos furtivamente, nos esbarramos coincidentemente. Morar aqui a princípio foi muito estranho, sentia que em algum momento ela apareceria e me perguntaria o que fazia eu por aqui, Demorei a processar que a casa não mais  pertencia a ela. Tive escrúpulos e medo de mudar coisas de lugar, pelo motivo muito simples que foi através dos objetos, organização e decoração que passei a conhecê-la.

Fiquei bastante chocada ao perceber afinidades infindas, imensas, incontestáveis. Diferenças imensas, incomensuráveis. Passei a vida inteira imaginando-me herdeira de um DNA paterno, talvez o motivo de eu nunca ter buscado tanto por meu pai biológico como a procura que fiz por minha mãe. Ela era uma pessoa adorável.solícita, solidária, prestativa, chegada a um trabalho manual, criativa. E tudo isso só descobri quando vi pela primeira sua última casa, onde ela não mais estava.
No mais em tantos encontros muita alegria, boas conversas, nada de afeto, Como mãe e filha fomos ótimas conhecidas sociais.

Lembro da minha infância deslocada, incompreendida, onde talvez meus pais biológicos mantivessem a expectativa que eu revelasse nos atos minha origem. Lembro de quando ela aparecia em alguma data comemorativa, trazendo sempre um presente que sempre me agradava, pelo sacrifício que imaginava ela fazia para me trazer. Era sempre uma alegria vê-la chegar e apenas imaginava porque eu sorria sem querer. Ela era diferente de tudo que havia no mundo que eu vivia.

Na adolescência tivemos um convivência muito curta de um feriado de carnaval. Mas nos nossos encontros era sempre tanta gente que a emoção se diluía e a conversa se esgarçava sem acontecer.  Um dia descobri que ela não tinha por mim a mesma afinidade, não foi fácil, mas o tempo ensinou-me que uma mãe pode não nos querer. Talvez não tivesse descoberto o quanto éramos parecidas, na cor preferida, na admiração por Michael Jackson, no gosto pela culinária, no prazer de ter uma casa arrumadinha. Afeto não se cobra, não se exige, no máximo se chora mas que seja por um tempo suficiente para que se escoe o visgo que se solidifica em mágoa e ela, a mágoa não se cristalize. Assim, deixei-a onde era o seu lugar, no passado. à vontade para exercer seu amor por aqueles que ela amava de verdade. Sim, mães não são obrigadas a amar um filho e talvez ela tenha tido a sorte de me ter distante e quem sabe, eu também.

Quando decidi mais uma vez procurá-la como conhecida, muito mais por minha irmã sentir saudades dela, conseguimos nos falar, Tínhamos pouco tempo mas não sabíamos. Aquele telefonema seria o início de uma vida próxima onde poderíamos já prontas dar uma volta nos ponteiros do tempo e descobrirmos juntas o que eu acabei por descobrir sozinha numa casa vazia, habitada por uma presença que me parecia palpável. Porque a vida é inexorável. Por que a vida é inexorável? Porque é.

Durante um tempo fui através do relato dos seus amigos e alguns vizinhos montando um retrato como a polícia investigativa monta o rosto dos suspeitos. Não há muita fidelidade nos rudimentos dos traços básicos, mas o o rosto que surge ao final é reconhecível. É duro perder pela segunda vez o que nunca se teve. É difícil ter em mãos a certeza do que não será jamais. Dói segurar os cacos de um sonho que não se dormiu o suficiente para que existisse. É dor de aborto envolto na culpa, o medo de um crime inexistente e a saudade da criança que tão nossa que jamais existiu. Não é uma dor que se invente, é uma dor real sobre quem jamais existiu.

Passava dias ouvindo sua voz à moda de um enamorado abandonado, num tempo sem fotos, sem registros, onde tudo encontra-se num banco de dados que reune fragmentos do pouco que se viveu. Algumas expressões características do modo de falar e um embasbacamento ao ouvir narrativas de quem com ela conviveu muito mais tempo que eu. Às vezes uma inveja ou ciúme. Contavam alguns vizinhos que ela era generosa, dividia seus dons culinários, fazia de tudo para agradar amigos, talvez tenha sido bom eu estar tão distante, longe o suficiente para não perceber que ela em sua alegria era uma festa para qual jamais me convidou. Prefiro finalizar a crônica na parte em que nos encontraríamos para começarmos a viver, mas era tarde, em algum lugar tem um anjo doido, distraído que controla mal o tempo só não perde a hora de nos levar embora. Foi assim brincamos no recreio com turmas diferentes e quando essas turmas se convidaram a brincar soou o sinal, fim do recreio.

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